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Eder Santos – reflexões de uma exposição:
Enciclopédia da Ignorância – Tabus, estados de emoção e estados de relação misturados n’alma
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DRIKA MONTEIRO
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Uma escuridão quase claustrofobica recebe os visitantes: mal os olhos acostumam-se com a mudança de ambiente nos deparamos com um céu de azul profundo correndo rapidamente acima de nossas cabeças. É a porta de entrada para o infinito, nomeada pelo artista como – INVEJA - um pecado justificado pela imagem refletida no espelho d’água. Os sons de canto à capela ajudam a interligar nossas mentes hipnotizadas ao divino criador de toda esta maravilha.
Eder Santos passa da admiração ao criador para a irritação com sua criatura. Em seu segundo trabalho – HUMILHAÇÃO – apresenta um altar para casamentos diante de um quadro com fotos de família. O modelo da família perfeita e sacra que ainda persegue a consciência do artista e de tantos outros, o tabu resiste aos tempos modernos.
O dia-a-dia passa por todas as propostas da exposição, alguns com mais impacto que outros. Mas a necessidade do tempo é imperiosa, o tempo fugidio, o tempo estacionário, o tempo perdido, o tempo não desfrutado. Do casamento passamos para o CIUME, representado por uma mesa com quatro cadeiras iluminadas fracamente e com tecidos finíssimos servindo de tela para baforadas de cigarro. Metáforas mil rondam e se divertem nessa mesa de jogo, não adianta o sim ao lado do padre, não adianta o sim ao lado do divino, não adianta o sim para si mesmo. Tudo se consome, tudo tem um preço, tudo é só, tudo acaba.
Embora tenha percebido que poucos conseguiam parar tanto tempo quanto eu diante da instalação PREGUIÇA, esta foi uma das imagens que mais me impressionaram. É praticamente uma ode ao desperdício de vida, olhar para uma pia de banheiro cheia d’água e ver uma imagem repetitiva da gota que cai só, ecoando num silêncio de morte. Desperta um estado catatônico, uma parada no tempo e não me assustaria se, ao levantar o olhar da gota d’água para o espelho diante de mim, eu visse rugas e cabelos brancos refletidos num rosto de setenta anos. Logo a fuga deste triste espetáculo é a única saída.
Se o tempo passou e não vimos, se a vida chega ao fim e nada acrescentamos a ela, o REMORSO vem com suas placas de granito escuro e frio incomodar o olhar. Nesta instalação, imagens velozes de folhas e flores crescendo em profusão logo secam, logo são castigadas pela chuva, logo são carregadas pelo vento e logo se misturam com imagens e fotos de uma vida passada, num tempo sem volta e pra sempre perdido. Um tilintar constante acelera o processo e desespera a quem vê, pois quer parar a música.
No pecado seguinte, o VÍCIO, está sendo apresentado numa placa de mármore branco onde imagens de corpos nus de homens e mulheres são impressas com uma rapidez enorme. O desconforto é a marca deste vídeo, pois os corpos não seguem repousando sobre o mármore, mas sim, sofrem contorções como que tentando se acomodar sobre a cama improvisada. Também aparecem marcas de corpos sobre uma matéria, que, acho eu é barro. O sentimento de desconforto lembra insônia, aflição, não adaptação. As imagens desaceleram quase no final do vídeo, há uma sensação de conformidade seguida pelo nada absoluto.
Até este momento, todas as instalações encontram-se num mesmo ambiente. Eder Santos separa numa câmara à parte, três estados de relação.
Encontramos um beliche sem escadas, a esta instalação chamou-se DOUBLÊ DE CORPO. Num primeiro momento, há uma correspondência entre esta proposta e o que foi visto em VÍCIO, o mesmo incômodo nas imagens de corpos contorcendo-se, a impressão e o peso do corpo sobre o colchão tanto quanto as imagens dos corpos sobre o barro, a insônia, a aflição e a não adaptação. A diferença é sutil, enquanto que em VÍCIO, não podemos fazer nada além de observar, em DOUBLÊ DE CORPO, podemos deitar no beliche e ter a sensação do desconforto como se aquelas imagens fossem nossos próprios corpos. E o melhor, ao assumirmos o papel de “doublê”, temos o poder de acabar com a sensação ao levantarmos do colchão. O desconforto tem fim a partir do momento em que resolvemos sair.
Olhando para o lado direito do beliche, pode-se ver uma cristaleira de três andares. No primeiro, cristais (taças, copos, etc), no segundo, um jogo de chá em porcelana e no terceiro uma espécie de “sopeira” iluminada por uma luz de tom amarelo “envelhecido”. Enquanto olhamos a cristaleira, sobre o vidro de trás do móvel, são refletidas imagens diversas nos dois andares superiores. Na primeira prateleira, os copos são projetados sobre o vidro e logo a seguir quebram-se em mil pedaços. Descendo o olhar, encontramos o jogo de chá também impresso sobre o vidro, e pétalas de rosa em profusão caem de uma das xícaras, vermelhas ao extremo, sanguíneas. A esta poesia, Eder Santos chama MEMÓRIA.
Por último, mas não necessariamente nesta seqüência, encontramos a MÁQUINA DE REFLEXÃO. Consta de um fone de ouvido, uma cadeira com um estranho apoio para a cabeça, e outros dois para as mãos. Também se encontra uma tela (parecida com um monitor plano de computador). Do fone de ouvido nada se escuta, da tela saem frases intercaladas por imagens de rostos desconhecidos. Rostos sérios, sorridentes, cansados, chateados, tristes.
Terminei a minha visita procurando luz e querendo sair daquela escuridão. Não por que a exposição tenha sido chata ou sem atrativos. Pelo contrário, me sinto incentivada a sair dali para modificar o tempo que me espera lá fora. Meu momento de passagem pela MÁQUINA DE REFLEXÃO, não se limitou ao tempo que fiquei sentada nela, mas começou do primeiro pecado (INVEJA) e só me deixou na porta do Palácio das Artes, quando pude ver a luz do sol novamente e entender a passagem do tempo de uma forma mais viva e não passivamente como tantas vezes me peguei.
O convite de Eder Santos é irresistível, viver o tempo e a vida, deixar as marcas tatuarem a carne. Sem culpa, sem pressa, sem preguiça, apenas no ritmo necessário para dizer que viveu.
(o artista trabalha com projeção de imagens em movimento sobre superfícies de diversos materiais/este ensaio data de 2003).
DRIKA MONTEIRO
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